Ervas daninhas

Determinados fatos e atitudes que comprometem seriamente o desenvolvimento da prestação de serviços de engenharia no Brasil.

Ervas daninhas - Barreto Engenharia

(abril / 2007)

Provavelmente o conteúdo deste artigo não seja novidade para muitos. No entanto, não custa trazer novamente à tona para reflexão e debate, determinados fatos e atitudes que comprometem seriamente o desenvolvimento da prestação de serviços de engenharia no Brasil.

Sem querer ser saudosista, felizes aqueles que tiveram a oportunidade de trabalhar nos anos 70. A engenharia podia ser praticada e desenvolvida com grande prazer e até certa soberania. No entanto, o que vemos atualmente é a engenharia se sucumbindo a outros interesses – até lícitos, porém, nas doses praticadas, tornam-se prejudiciais à própria engenharia e aos profissionais que assim se deixam conduzir.

Que tal se a engenharia passasse a utilizar como princípio o lema do brasão da cidade de São Paulo: “non dvcor dvco” (do latim: não sou conduzido, conduzo)?

Cabe ressaltar que, quando ocorre um acidente, não adianta o profissional alegar que avisou o contratante de que aquela não era a melhor solução, ou que o problema foi causado por pressões financeiras, administrativas ou políticas. Para todos os efeitos, ele é o responsável técnico, e está sujeito a responder pelos danos causados, nas esferas cível, criminal, trabalhista e profissional (Crea).

Infelizmente, persistem os desvios de conduta e de procedimentos aplicados na maioria das contratações – tanto por parte de contratantes quanto de contratado – em empresas privadas e públicas, independentemente de porte e de segmento.

Diversas são as “ervas daninhas” que notadamente se alastram cada vez mais pela engenharia. Em muitos casos, os profissionais plantam e até adubam tais ervas, sem se darem conta disso. Por ingenuidade, por falta de percepção, ou então por suicídio mesmo!

Cada uma dessas ervas daninhas poderia ser tratada em artigo específico, com maiores detalhes. Por ora vamos apenas citá-las e deixar que o dia a dia de cada leitor o faça viajar pelos exemplos vividos. Vamos a elas:

 

  • Concorrência de preço para prestação de serviço de natureza intelectual (projeto, consultoria, perícia, etc.) – Qual é a visão e o pensamento de um contratante que acha possível fazer comparações de preços (e evidentemente optar pelo menor) entre fornecedores desse tipo de serviço?  Há aqueles que afirmam que fazem a famosa “equalização de propostas”. Pura fantasia, jogo de enganação ou hipocrisia compartilhada! Como será que equalizam? Seria perfilando a “cabeça” de cada um dos fornecedores e “medindo” a sua capacidade intelectual por meio de sofisticado instrumento de medição? (ver imagem)
  • A busca insana pelo mais barato – É evidente que ninguém propositadamente quer jogar dinheiro fora. No entanto, atitudes impensadas e irresponsáveis, têm levado muitas empresas a enormes equívocos de contratação e a ficarem com um enorme “abacaxi” nas mãos. Muitas vezes elevando o seu passivo sem perceberem. Alguns empresários sequer conseguem avaliar o tamanho do prejuízo que resulta desse procedimento de contratação. Nem ficam sabendo das consequências, pois a turma do “baixo clero” não deixa essas informações chegarem até eles. Geralmente o prejuízo é mascarado ou encoberto pelos escalões inferiores da empresa.
    Sabe-se que nem sempre o menor preço é a melhor opção de contratação. Além disso, não é proibido contratar serviços por um valor maior do que o estimado ou do que as demais propostas. Para tanto, é imprescindível a participação efetiva da área técnica na decisão de contratações, fazendo valer a sua opinião, a despeito das pressões de outros setores da empresa que, geralmente, não terão de conviver com aquele abacaxi. Deve-se sim buscar o melhor preço e não o menor preço.
  • Despreparo do setor de compras – Aberta a concorrência, ou tomada de preços, ou carta-convite, ou qualquer outro rótulo que se dê a uma modalidade de contratação de prestação de serviços, e após as devidas discussões técnicas e de prazos de execução, invariavelmente o próximo passo do candidato a fornecedor é negociar com o setor de compras, onde o que interessa agora é o preço e nada mais. Na maioria das vezes, o preço não é nem avaliado juntamente com os demais itens da proposta. O objetivo do contratante agora é “esmagar” o fornecedor para levar vantagem no preço, independentemente de qualquer outro fator. E o comprador ainda chega até a receber um prêmio da alta direção por “lesar a empresa”. Sim, lesar, pois não se tem ideia das consequências desse tipo de procedimento. Infelizmente essa é a regra (com as raras exceções).
    Com isso, percebe-se a falta de força do setor de engenharia das empresas para decidir as contratações dentro da sua própria área, ficando tal tarefa destinada ao setor de compras, que nada entende do assunto. Afinal, comprar serviço é completamente diferente de comprar mercadoria. Não se deve comprar projeto de engenharia da mesma forma que se compra sacos de lixo. Existem até situações constrangedoras, nas quais é visível o jogo de enganação. Ou seja, o fornecedor finge que fornecerá o que foi pedido e o comprador finge que acredita, só para cumprir o seu papel na empresa – que é apenas … comprar. 
  • Esperto ou espertalhão? – Como desdobramento da erva daninha anterior, vários são os fornecedores que se curvam a tais condições, fechando contratos vis, até o dia em que não conseguem mais fazer frente aos seus compromissos financeiros e nem manter a estrutura da empresa, encerrando suas atividades. Muitas vezes deixando seus clientes na mão, com o serviço inacabado – ou mal acabado. Imprudentemente, alguns contratantes se acham suficientemente espertos e se vangloriam de ter conseguido “boas” contratações, segundo esse macabro ritual.  E tudo isso com a conivência da diretoria das empresas, a qual, inclusive, elogia tais procedimentos, por não verem (ou não querem ver) as perigosas consequências dessas atitudes. Deveriam sim os contratantes, zelar pela sobrevivência dos seus fornecedores, de forma a continuarem sendo atendidos (e bem atendidos) naquilo que necessitam. Não por acaso depois reclamam que não encontram bons fornecedores, ou que não encontram mais aquele fornecedor – “apertem os cintos, o fornecedor sumiu”!
  • Usurpação de escopo – Neste quesito a malandragem está em definir um escopo de serviço. Quando o tomador de serviço, mesmo possuindo pessoal da área técnica, não tem a exata noção do que deve ser contratado, ele  procura um ou dois fornecedores incautos (ou cobaias, como queiram), com aquela conversinha mole prometendo lhes dar preferência na contratação (repete a história para cada um reservadamente), que a empresa dele não contrata pelo menor preço, que se preocupa muito com a segurança, que faz equalização de propostas, e o velho blá blá blá já conhecido, cheio de hipocrisia.
    Com isso, o incauto fornecedor acaba entrando na armadilha (apesar de conhecê-la) e, prestando consultoria gratuita, monta o tal escopo, a partir de um “pseudoescopo” preparado de qualquer maneira pelo tomador de serviço apenas para dar o bote. Ou seja, o trabalho que deveria ser feito pela empresa contratante (ou por uma consultoria), acaba sendo feito por vários fornecedores, por má-fé, ou, geralmente, por incompetência de quem conduz a contratação.
    Uma mutação dessa erva daninha ocorre, quando o tomador de serviço ainda não tem nem noção do que colocar no escopo e chama (ao invés de contratar consultoria) um ou mais fornecedores de serviços para fazerem uma “visitinha” (evidentemente informal) para verificarem um problema que está ocorrendo na empresa e fornecerem uma proposta para execução de serviços. Durante essa visitinha, o anfitrião, deliberadamente, pressiona e induz o fornecedor a identificar os problemas e apresentar soluções. Quando o fornecedor se mostra reticente, o anfitrião emenda sem qualquer pudor: “preciso saber qual é a solução que você vai apresentar para ver se atende as minhas necessidades e o padrão da empresa”. E não perde tempo em anotar tudo o que é dito pelo incauto fornecedor, que consciente ou não, forneceu consultoria gratuita.
    Construído então o escopo final, resultado dessa artimanha, ele é distribuído para dezenas de empresas apresentarem suas propostas, onde o que interessa agora é só o preço. E o tomador de serviço ainda se sente orgulhoso da tarefa executada, pois não custou nada para a sua empresa a construção do tão desejado Escopo! Talvez ela nem contrate terceiros e tente resolver por conta própria os problemas, uma vez que, de certa forma, já possui algum roteiro. E o que é mais grave, muitas vezes esse procedimento antiético é promovido pelos próprios engenheiros contratantes.
  • Caderno de encargos inadequado – Para se proteger de futuros problemas no decorrer de uma contratação, boa parte das empresas de médio e grande porte elaboram um caderno de encargos para estabelecer requisitos e procedimentos para execução de determinados serviços. Mecanismo este bastante saudável, de suma importância para o bom desenvolvimento das contratações e das relações entre as partes e que deve ser elaborado por quem tenha a devida competência. No entanto, algumas empresas acabam criando cadernos de encargos extremamente volumosos, repletos de condições impraticáveis e que mais complicam do que ajudam.  Muitos deles, construídos a partir de orçamentos diversos que, por falta de criteriosa e competente avaliação, acabam se transformando em uma grande “colcha de retalhos” (ou copia-cola). Tal fato demandará grande investimento por parte do fornecedor para ler e avaliar esse monstro e tentar encontrar os itens que são verdadeiramente importantes para a contratação em questão. E no fim de tudo, ainda vai cair na teia do “menor preço”, sem qualquer avaliação de confiabilidade e competência por parte de quem contrata, como já indicado anteriormente.
  • Dr. Sabe tudo – É praticamente impossível um profissional conhecer com profundidade todos os assuntos da sua própria área de formação.  No caso da engenharia elétrica, poderíamos exemplificar por meio das diversas especialidades, tais como: baixa, média e alta tensão, aterramento, descargas atmosféricas, instrumentação e controle, sistemas de potência, proteção de sistemas elétricos, atmosferas explosivas, transformadores, motores, geradores, instrumentos de medição, instalações hospitalares, residenciais, industriais, hoteleiras, entre tantas outras.
    Mas, em diversas ocasiões, um profissional encarregado da área elétrica de uma empresa, mesmo sem ter o amplo conhecimento de todos esses assuntos, acaba tomando decisões e chamando a responsabilidade para si daquilo que desconhece. Há casos em que um fornecedor, tendo fechado contrato com uma empresa para realização de determinado serviço, acaba também realizando outros serviços para os quais não está devidamente preparado, só para não “perder” o cliente. Ou seja, faz-se e não se tem noção do que se fez.
    Isso ocorre por falta de responsabilidade, de humildade, ou ainda, por pressão da empresa ou do mercado. Muitas vezes o profissional não consegue explicar para os leigos que a engenharia, assim como a medicina, tem as suas especialidades, ou então, simplesmente não sabe como lidar com essas situações.
    É importante ter em mente que tais atitudes comprometem diretamente os profissionais, os que trabalham com ele, a empresa cliente e a própria engenharia, que ficará mal vista diante dos problemas que fatalmente ocorrerão. Além disso, prejudica o trabalho de consultoria, impedindo que profissionais com larga experiência em determinados assuntos realizem um bom e digno serviço.
  • Uso inadequado do termo “cliente” – É comum designar a empresa que solicita um orçamento de “cliente”. Salvo melhor juízo, cliente é a empresa ou pessoa para a qual se presta serviço. Ou seja, há uma relação mais próxima. Parece bobagem ou preciosismo, mas no fundo o enquadramento equivocado de “cliente” e “provável cliente”, influenciará sobremaneira a forma de tratamento, concessões, investimentos, grau de risco, comprometimento na relação, etc. O cliente de fato, deve ter um tratamento diferenciado daquele que é apenas mais um aproveitador de propostas. Este não é cliente. Quem sabe até deva ser excluído da nossa carteira de atendimento!
  • Cursos versus palestras – Ambos são muito bem-vindos e necessários.  Precisam até ser ampliados para atender a enorme demanda pela melhoria da qualificação profissional na engenharia, que está em permanente e significativa evolução. No entanto, é importante estabelecer as enormes diferenças entre curso e palestra. Atualmente ocorre certa despreocupação com tais diferenças, até de forma irresponsável, por parte daqueles que promovem cursos e palestras. De certa forma banalizando-os e não dando o devido valor a cada um deles. Os organizadores devem, sobretudo, pensar nos profissionais que se deslocam e pagam para participar desses eventos e, muitas vezes, saem frustrados.
    É comum as veiculações induzirem os profissionais a acreditar que aprenderão algo sobre o assunto apresentado em palestras. Ora, palestra não tem o objetivo de ensinar, mas sim de apresentar de forma sucinta alguma novidade. Pode-se dizer que uma palestra é como a capa de um jornal: tem-se acesso apenas às “manchetes” e não à notícia inteira. Trata-se de mero fornecimento de “informação”. Já o objetivo de um curso é fornecer “conhecimento”, por meio de abordagem didática e coordenada, fomentando debates e troca de experiências entre os participantes, contando com a bagagem teórica e a imprescindível vivência do apresentador. Sem “guardar o leite” – até porque, leite guardado azeda!
    Os profissionais devem ficar atentos para não serem enganados pelos oportunistas de plantão.
  • Falha de engenharia ou falha de gestão? – O crescimento da quantidade de acidentes levou a engenharia para a berlinda. Atualmente, o foco das atenções e de depoimentos irresponsáveis tem recaído sobre esta área.  Os acidentes devem ser apurados, os erros identificados e as medidas corretivas adotadas para que não mais ocorram. Mas será que em todos os casos houve erro de engenharia? E as falhas de gestão nas contratações? Será que as investigações se limitam às questões técnicas ou também apura-se o que ocorreu durante o processo de contratação? Como se explica que determinada obra seja contratada por valor muito inferior ao estimado? Provavelmente muitos leitores já tenham “perdido” contratos por diferença absurda de preço. Que coragem do contratante em fazer essa opção! Em agindo assim é fatal que acabe recebendo na justa medida do que quis pagar. E nem vai perceber!

Existem muitas outras ervas daninhas que contaminam a área tecnológica, mas, por ora, as aqui descritas são suficientes para proporcionar reflexão sobre o futuro da engenharia brasileira.

Para não ficarmos apenas em mais um artigo que tratou dos problemas da área da engenharia, espera-se que as empresas públicas e privadas percebam o que estão fazendo a cada contratação e que as diversas associações e entidades do setor, atentem para essas questões e criem ações eficazes para reverter esse danoso quadro, onde todos perdem.

Que tal voltarmos a tomar conta da nossa engenharia antes que “alienígenas” o façam?  E isso é sério!

Autor: Paulo E. Q. M. Barreto

Engenheiro eletricista, coordenador da Divisão de Instalações Elétricas do Instituto de Engenharia, ex-Conselheiro do Crea-SP, consultor e diretor da Barreto Engenharia. www.barreto.eng.br

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